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7 de set. de 2009

O amor cru

Foi ótimo ver Annie outra vez. Percebi a pessoa incrível que ela é, e como era bom poder conhecê-la. E pensei na velha piada. Um cara vai ao psiquiatra e diz: "Doutor, meu irmão é louco. Ele acha que é uma galinha". O doutor diz: "Por que não o convence?". O cara diz: "É, mas eu preciso dos ovos". Bem, acho que é o que penso dos relacionamentos hoje. São totalmente irracionais, loucos e absurdos. Mas continuamos neles, porque a maioria de nós precisa dos ovos. Wood Allen, com sua impassibilidade peculiar, finaliza assim sua grande obra: Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall). Mas afinal, por que precisamos tantos desses ovos?

Vamos tentar entender analisando pelo lado da biologia, mais especificamente a fisiologia e a bioquímica. Quando encontramos com a pessoa querida nosso corpo reage liberando adrenalina em nossa corrente sanguínea.Como resultado podemos ter taquicardia, dilatação da pupila, tremores, ansiedade, etc.Claude_Monet,_Impression,_soleil_levant,_1872 Com o desenvolvimento da relação, e consequentemente o aumento da paixão, nosso corpo passa a liberar uma molécula neurotransmissora chamada dopamina. Quando uma pessoa inala cocaína a sensação de bem-estar decorrente da droga deve-se principalmente a liberação de dopamina no organismo. E, assim como a droga, a paixão causa dependência. Queremos estar sempre com a pessoa amada, sentimos saudades, e prazer quando na sua companhia. O sexo é outro importante fator de liberação de substâncias. No momento do orgasmo nosso corpo libera um hormônio chamado ocitocina que, entre outras ações, leva ao estreitamento da relação. Do ponto de vista biológico, quanto mais sexo, mais ligados à outra pessoa nos sentimos, logo, a união é mais consistente.

Resumindo, o amor, a paixão, os sentimentos, são apenas frutos de moléculas, substâncias e impulsos elétricos no nosso organismo. A paixão por uma pessoa, biologicamente, é igual a paixão por qualquer outra pessoa, variando, talvez, na intensidade. O organismo reage da mesma forma, a sequência de eventos é a mesma. Toda poesia que está por trás do amor é fruto da imaginação humana. O amor é cientificamente explicado e passível de entendimento. Já sabemos, relativamente bastante, o porquê das nossas emoções. Então, por que tanto furdunço em relação a esse tema? Por que poetas, cineastas, cantores, filósofos, entre outros, gastam tanto tempo com esse tema?

Hoje, durante a tarde, pensei em uma analogia que me levou a escrever esse texto. Quando vemos uma tela de Monet, ou quando ouvimos uma música de Bach, não ficamos imaginando (quase nunca) quais as moléculas ou substâncias que compõem a pintura, ou como a onda mecânica se propaga emanando dos instrumentos que fazem parte da canção. Apenas apreciamos o resultado como um todo. Nos deixamos levar pela beleza da imagem ou a sensação da melodia. Ou seja, o amor pode ser bonito quando o enxergamos como uma obra de arte.

 
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